Comissão de Assuntos Indígenas da Aleam visita ianomâmis de São Gabriel e encontra muitos problemas de saúde

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“Falta tudo, é um cenário primitivo. Os índios clamam por ajuda", frisa Vicente Lopes

“Falta tudo. É um cenário primitivo. Os índios clamam por ajuda”, frisa Vicente Lopes

Um dos maiores problemas dos índios ionamâmis no Distrito de Maturacá é na questão da saúde, por isso eles reclamam a presença de médicos e remédios que não estejam vencidos. O atendimento quase sempre é realizado por uma enfermeira. Bebida alcoólica também preocupa, conforme relatos ouvidos pelo deputado Vicente Lopes (PMDB), presidente da Comissão de Assuntos Indígenas da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), que esteve em São Gabriel da Cachoeira (a 852 km de Manaus), nos dias 8 e 9 deste mês.

Maturacá fica a 150 km da sede de São Gabriel e ali o deputado se encontrou com moradores e lideranças, como o cacique Antônio, o pajé Carlos e o tuxaua Tomas. Deles ouviu que indígenas estão morrendo por falta de saúde e os traficantes estão invadindo as terras e “usando o povo”. Maturacá, junto com as comunidades Ariabu, União, Vila da Auxiliadora e Santa Maria, possui uma população estimada em 1.800 indígenas.

Vicente Lopes teve uma reunião com umas 300 pessoas no ginásio da escola estadual indígena Imaculada Conceição. Depois, seguiu a pé, pelas trilhas, para visitar aqueles que não puderam participar da reunião. Segundo ele, não há banheiro dentro das casas e rede de esgoto muito menos. O alcoolismo também já chegou às aldeias. Os índios, como qualquer outra população do mundo, têm esse problema. A bebida não é mais usada só em rituais: é comprada no mercado.

Vicente Lopes diz ter constatado “o que todos sabem, mas fecham os olhos para esses irmãos abandonados pelo poder público”. “Falta tudo. É um cenário primitivo. Os índios clamam por ajuda. O Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) está com péssima estrutura, a enfermaria é improvisada em redes numa pequena varanda, com o chão de terra batida. Aliás, o posto todo é de terra batida, os partos e outros procedimentos são realizados em cima de uma maca toda enferrujada. Há de se registrar que os enfermeiros e técnicos fazem milagres com o quase nada que têm e fazem tudo com muito amor e abnegação”, afirma.

“Homem branco” – Os indígenas expuseram preocupação com problemas de drogas e álcool, se dizem vítimas de preconceito da parte do “homem branco”, reclamam da falta de emprego fora das aldeias, falta de assistência do poder público, escassez de alimentos e desvio de verbas governamentais que chegam à aldeia. Conforme Vicente Lopes, os indígenas, infelizmente, não têm muito o que comemorar no dia 19 de abril e prometeu “trabalhar arduamente” para que o sofrimento deles sejam minimizados. Vai propor diretrizes, “fiscalizar cada centavo destinado às comunidades e ser o porta-voz de suas reivindicações”.

Sobre o alcoolismo, diz o deputado: “O álcool produz, nos índios, os mesmos efeitos gerados na sociedade. Há casos de morte por cirrose, conflitos internos, agressões, há registros de problemas com verminose e diarreia”. Há outros problemas. A aldeia de Ariabu e União, com cerca de 800 indígenas, estão sem energia, pois o gerador está há seis meses com uma peça danificada, segundo informou o agente comunitário Francisco Xavier da Silva Figueiredo.

A escola indígena Imaculada Conceição, localizada no distrito de Maturacá, tem boa estrutura, com 13 salas de aula, ginásio, duas salas regionalizadas (chapéu de palha) para aulas de apoio, três motores de luz. Porém a Seduc (Secretaria de Estado da Educação) não fornece combustível para o funcionamento de pelo menos um gerador. As aulas do turno da noite são realizadas graças a ajuda da Missão Salesiana, que fornece um pouco de combustível. Diz o padre Reginaldo Oliveira, gestor da escola: “Mas eu não tenho como fazer a Missão gastar R$ 4 mil reais por mês com uma atividade que não é dela, mas da Seduc”.

Pesquisa – Censo 2010 revelou que, das 896 mil pessoas que se declaravam ou se consideravam indígenas, 572 mil, ou 63,8%, viviam na área rural e 517 mil, ou 57,7%, moravam em Terras Indígenas oficialmente reconhecidas. Em números absolutos, a maior população indígena do país reside no Amazonas (168,7 mil pessoas, ou 20,6% da população indígena do país).

Os 10 municípios com maior contingente de população indígena, segundo o Censo 2010, concentravam 126,6 mil indígenas, o que corresponde a 15,5% da população indígena nacional. Desses, cinco municípios tinham mais de 10 mil indígenas residentes, sendo quatro no Amazonas: São Gabriel da Cachoeira (29,0 mil), São Paulo de Olivença (15,0 mil), Tabatinga (14,9 mil), Santa Isabel do Rio Negro (10,9 mil). Além deles, entre as capitais, apenas São Paulo passou dessa marca, com 13,0 mil indígenas.

Roberto Brasil