COISAS DA CHATICE

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Se pararmos para pensar no amontoado de coisas chatas e/ou inúteis que se nos deparam ao longo da vida, teremos motivos de sobra para reflexões e aborrecimentos. Veja, meu raro leitor, o caso dos discursos. O homem, mais ou menos enfatuado, sobe à tribuna, saca do bolso do paletó um calhamaço de papel e se põe a discorrer, por infindáveis horas, sobre um assunto que, na maioria das vezes, tem importância idêntica à busca de estabelecer qual o sexo dos anjos ou se é possível verificar a quadratura do círculo. Na hipótese de um improviso, a coisa não muda de figura. Muito pelo contrário. Em estando escrita a arenga pelo menos temos a certeza de que em algum momento ela terá fim. No outro caso, não. O Cicero de beira de igarapé se empolga com o som da própria voz e deita falação interminável, vindo a construir preciosidades linguísticas, de que são exemplo o elogio da mandioca e a criação da “mulher sapiens”, legados eternos de nossa afastada (espero que definitivamente) “presidenta”.

Convenhamos: um discurso é chato. Lembro-me de que em 1987 estava eu em Havana, participando de um simpósio de direito internacional. À mesa de encerramento dos trabalhos, a figura emblemática do presidente Fidel Castro. O protocolo previa apenas o pronunciamento do dirigente da entidade promotora do congresso. Quando este se dispunha a encerrar a sessão, o anfiteatro em peso (e era imenso o ambiente) se põe a bradar em coro “Fidel, Fidel”. Levanta-se o comandante, vai à tribuna e assim se expressa: “Yo non queria hablar, pero ustedes me llamaron…” E falou durante nada menos que seis horas seguidas. O deslumbramento de ver pessoalmente o grande revolucionário foi se esvaindo. Lá para as tantas não aguentamos mais e saímos, Aristófanes de Castro Filho (saudades), Valdenira Thomé e eu, para degustar “mojitos” no primeiro botequim que encontramos na belíssima capital cubana.

E o discurso tem seus consectários. Uma aula, por exemplo. Se não é bem dada, se o professor não é vocacionado para o ofício, os cinquenta minutos normais se transformam num suplício inquisitorial capaz de levar o aluno a se indagar sobre o real propósito de sua permanência naquele show de inutilidades. É que às vezes não se consegue estabelecer o mínimo de interação entre a matéria lecionada e a vivência prática, de tal maneira que o infeliz aluno não logra discernir a utilidade do assunto. Era o meu caso numa aula de matemática, quando me obrigavam a manusear uma tábua de logaritmos. Até hoje continuo na mais santa ignorância, sem ter a mínima ideia de para que serve aquela coisa, que me atormentou, que me tirou horas de sono, levando-me a imaginar que logaritmo era uma linguagem usada no quinto dos infernos.

As cerimônias religiosas, festivas ou fúnebres, têm lá sua grande parcela de contribuição no universo da chatice. Tomemos a missa, celebração com a qual tive suficiente intimidade em razão das funções de coroinha que desempenhei com tanta dedicação nos meus longínquos tempos infanto-juvenis. Se o celebrante não se manca ou se tem complexo de padre Vieira, vai atormentar os fiéis com sermões tão compridos quanto um dia de fome e nos quais por vezes se inserem tolas ingenuidades como aquela de que o homem foi feito do barro, aviventado pelo sopro divino. Se se trata de um velório, raro não é que a condição do defunto seja menosprezada por contraditórios apelos à ressurreição e à vida eterna, enquanto o extinto permanece na sua imobilidade de pedra, sem olhos ou ouvidos que lhe permitam acompanhar o espetáculo.

Pense agora num aniversário de criança. Dezenas de curumins e cunhantãs estão soltos, liberados, uma horda, numa correria infindável e utilizando brinquedos que com certeza não foram fabricados para audições sensíveis. Se você não tem ligações familiares com o aniversariante, pode ter certeza de que seu sofrimento será indescritível. Sendo evangélica ou islâmica a família responsável pelo festejo, redobre sua perspectiva de tortura porque haverá privação do direito de tomar pelo menos uma cerveja, contentando-se o infeliz participante com a degustação de terríveis cachorros-quentes, acompanhados de um horrendo refrigerante. Nem pense em uísque. Seria indizível afronta e sacrilégio severamente punido.

É certo que, mesmo sendo adulto o que aniversaria, o convidado não está totalmente livre de ver cair sobre si o peso do mau gosto que, no final das contas, é sinônimo de chatice. Já estive em uma dessa comemorações em que o garçom, muito solícito, desferiu-me um cruzado de direito no queixo ao afirmar que o único vinho de que dispunha era “Sangue de Boi”. Acresça a isso que o aniversariante, por defeito irreversível (não sei se congênito ou adquirido) era adepto da música sertaneja. Foi pavoroso. As duplas do ramo se sucederam numa sequência horripilante e eu só tive um momento de alívio quando o dono da festa, instado por mim, assegurou que não gostava de axé. Também seria demais. Sobrevivi a duras penas, padecendo de uma enxaqueca que me deixou de cama por uma semana. Definitivamente, tenho pavor de chatice.

Áida Fernandes