CHICO DA SILVA E A POÉTICA DE AJURICABA

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Ademir-RamosMais de uma vez estive com o Chico da Silva, o poeta das belas canções eternizadas, para falar sobre a luta do guerreiro Ajuricaba, o mestre Chico confidenciou que tem o maior fascínio pela história deste guerreiro Arawak, filhos dos Manáos, contudo não conseguia entender como este herói de carne e osso, de muitas batalhas vencedoras contra os colonizadores europeus possa ter dado cabo da própria vida, recorrendo ao suicídio como resposta aos exploradores. Realmente, a história do Amazonas bem que mereceria mais atenção dos nossos acadêmicos, principalmente por parte da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) que, por dever de ofício deveria criar um GT para o cumprimento desta missão. Sobre a trajetória do guerreiro Ajuricaba, das rebeliões indígenas do Rio Negro no século XVIII, o professor Samuel Benchimol, com aval da Fundação Universidade do Amazonas – atual UFAM – bancou na década de oitenta, pesquisa documental no Arquivo Histórico Ultramarino, em Lisboa, sob a orientação do professor João Renôr Ferreira de Carvalho acompanhado do fotógrafo Costa Lima, que juntos resgataram para UFAM uma densa documentação capaz de clarificar a compreensão da nossa história. Todas essas fontes primárias foram microfilmadas e encontram-se no Museu da UFAM a reclamar atenção dos acadêmicos como também dos patrocinadores de nossa cultura.

A MATERIALIDADE DA HISTÓRIA: Ainda hoje se fala muito pouco das rebeliões indígenas do Rio Negro e menos ainda das lutas aguerridas de Ajuricaba. Alguns autores ainda conservam a prática de citar estes fatos em nota de rodapé o que é um desrespeito à nossa história. Não satisfeitos projetam esses acontecimentos para o campo das narrativas míticas descolado da realidade como se fosse uma invencionice lendária, desqualificando também a etnohistória dos povos indígenas. Da iniciativa do professor Samuel Benchimol ainda guardo os primeiros Boletins do CEDEAM que contava com o apoio da SUFRAMA/FUA para sua edição.  No Boletim nᵒ 3, de 1983, o professor João Renôr faz apresentação dos registros documentais resgatados do Arquivo Histórico Ultramarino, afirmando que: “Apesar das informações dispersas sobre essas guerras dos índios Manáos e Mayapenas, o documento que encontramos em Portugal (…) nos oferece pistas sobre a existência dos ‘Autos Sumários de Justificação da Guerra’ movida por Belchior Mendes de Moraes entre 1724 e 1729”.

PRISÃO E MORTE DE AJURICABA: Os documentos levantados em Portugal dão conta, segundo João Renôr, das atrocidades da guerra contra os indígenas do Rio Negro, que embora tenha sido considerada injusta pelos Conselheiros da Corte, “nada alterava os fatos já acontecido como a prisão e morte de Ajuricaba, extermínio brutal de centenas de Manáos e Mayapenas bem como a escravização de centenas de sobreviventes da guerra e que foram conduzidos para Belém a lá vendidos como escravos aos Senhores de Engenhos do Pará e Maranhão”.  Nesse embate aguerrido pela liberdade, Ajuricaba chefe dos Manáos foi preso pelos portugueses e também transportado para Belém conforme os termos do Ouvidor do Pará Francisco de Andrade Ribeiro enviado ao Governador da Província com data de (set-18) 1730, apensando os Sumários e Justificações que remeteu o dito Belchior Mendes de Moraes, cabo de uma tropa de guerra que foi mandado pelo Governador do Grão Pará-Maranhão Alexandre de Souza Freire para fazer a guerra contra os gentios do Rio Negro.

E O SUICÍDIO: Para os colonizadores portugueses Ajuricaba é um rebelde nativo que se opõe ao projeto colonial da Coroa Portuguesa na Amazônia e por isso deve ser contido a todo custo. A guerra feita contra os indígenas do Rio Negro vulgarmente chamado de Manáos e Maypenas é um fato, assim como a prisão do chefe dos Manáos. O suicídio é uma versão eclesiástica para demonizar mais ainda o Ajuricaba. O suicida não tem direito a morada eterna é escrachado pelos cristãos. Os registros dão conta que o capitão Belchior, que perdeu a “joia da coroa”, isto é, a cabeça do Ajuricaba, não tinha outro argumento que não fosse o suicídio. Convenhamos, um líder da grandeza de Ajuricaba senhor da guerra jamais iria se intimidar ao cair no Rio Negro. Rompido os grilhões o nosso herói de forma determinado jogou-se ao berço do Rio não para suicidar-se mais para encontrar a liberdade. Sem notas e registros Ajuricaba, oficialmente para história é dado como morto, mas, para nossa gente, o nosso herói mitificou-se no imaginário das culturas porque, segundo Lévi-Strauss, em seu texto vestibular “A Leitura dos Mitos” In. Antropologia Estrutural (1975): “Um mito diz respeito, sempre, a acontecimentos do passado (…). Mas, o valor intrínseco atribuído ao mito provém de que estes acontecimentos, que decorrem supostamente em um momento do tempo, formam também uma estrutura permanente. Esta se relaciona simultaneamente ao passado, ao presente a ao futuro”.

O rito destas celebrações está nas culturas indígenas, na história e na toponímia regional, a merecer da Bancada Federal, a entronização de Ajuricaba no Panteão da Memória Nacional. Mas, muito antes, tenho a certeza que Chico da Silva fará ecoar nas florestas os acordes poéticos de um canto libertário, fazendo jus à história deste que em vida se chamou Ajuricaba, a estrela maior de nossa Bandeira, símbolo vivo de nossas lutas sociais contra a exploração, a escravidão e o mandonismo político.

Roberto Brasil