Chance de Dilma não acabar mandato é superior a 50%, diz analista

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O governo Dilma não tem mais condições de trazer uma agenda que equilibre as contas públicas, diz o ex-dirigente do BC

O governo Dilma não tem mais condições de trazer uma agenda que equilibre as contas públicas, diz o ex-dirigente do BC

Os acontecimentos políticos, em particular o desenrolar das últimas fases da Operação Lava Jato, fizeram Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do Banco Central e sócio-fundador e CEO da Mauá Capital, acreditar que há uma probabilidade acima de 50% de a presidente Dilma Rousseff de não acabar seu segundo mandato.

Quer seja via impeachment, cassação da sua chapa com Michel Temer pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ou até a própria renúncia de Dilma.

Para Figueiredo, a troca no comando do País seria o gatilho para um choque de confiança, a condição necessária para uma guinada da economia brasileira.

Nesse cenário, a Bovespa mudaria de patamar e o dólar poderia recuar até próximo de R$ 3,00, segundo ele.

Em conversa com esta coluna, Figueiredo disse estar otimista com a perspectiva para a economia brasileira, mas que a situação presente é preocupante.

“As coisas hoje estão indo ladeira abaixo: existe um enorme consenso de que a dinâmica muito negativa veio para ficar”, diz o CEO da Mauá Capital. “Há uma profunda falta de confiança, deflagrando enorme receio de empresas e pessoas, numa postura de defesa a um ambiente muito conturbado, gerando um processo forte de círculo vicioso.”

Na visão dele, a esta altura o governo Dilma não tem mais capacidade de promover um forte choque de confiança capaz de interromper a dinâmica negativa em que se encontra a economia brasileira, resultando na “enorme” destruição de riqueza do País.

“Fora uma troca de comando, esse choque de confiança aconteceria apenas se Dilma se desvincular ao PT e se colocar num governo de coalizão envolvendo a oposição, numa forma de transição para um novo governo com uma agenda de reformas sólida e arrumada”, diz o ex-diretor do BC, ressaltando considerar remota essa última hipótese.

Para Figueiredo, a discussão é meramente pragmática: o governo Dilma não tem mais condições de trazer uma agenda que minimamente equilibre as contas públicas, mesmo que no médio prazo.

“É preciso um arranjo político que dê base para sustentar essa agenda”, diz.

Figueiredo admite que alguns ajustes importantes na economia já aconteceram: um realinhamento dos preços administrados; uma melhora da taxa de câmbio e, por tabela, o balanço de pagamentos; uma redução no custo da mão de obra induzido até pelo aumento do desemprego, entre outros.

A taxa de câmbio já vai produzir um déficit de conta corrente perto de zero neste ano ou no próximo e o investimento estrangeiro direto consegue cobrir isso, explica.

“Mas esses ajustes não suficientes para gerar uma virada no cenário, embora eles sejam muito importantes. O balanço de pagamentos é o lado mais saudável do Brasil hoje”, observa Figueiredo. “Mas somente com uma troca de governo para provocar uma guinada.”

Ele destaca haver uma preocupação exagerada com a trajetória da dívida bruta pública e uma discussão inadequada sobre ela.

Para Figueiredo, a dívida bruta brasileira é superestimada nos cálculos de muitos analistas, em mais de 20 pontos porcentuais. Segundo ele, se a dívida bruta da China fosse contabilizada da forma como é feita no Brasil – levando em conta a venda de títulos públicos com recompra – o patamar do endividamento chinês subiria de ao redor de 50% para 110% do PIB.

“Isso não muda a dinâmica da dívida brasileira, que é muito ruim, mas muda a visão de o quão perto do precipício estamos”, diz.

Além disso, ressalta ele, é cada vez menor o risco de o Brasil se tornar uma Venezuela, tanto pela reação das instituições do País, “após tentativa de reduzi-las à pó”, como também pela rejeição crescente dos eleitores de uma postura populista do governo.

“Esse tipo de política – populista – está chegando ao fim”, sentencia Figueiredo.

Segundo ele, apesar de a economia brasileira estar com desempenho sofrível, os preços dos ativos brasileiros embutem um nível de risco muito grande, embora ainda não tenham precificado a possibilidade de o governo Dilma descambar para uma postura populista total, levando, por exemplo, a um déficit primário da magnitude de 4% do PIB como forma de ressuscitar a economia.

“Mas essa postura exageradamente populista não encontraria respaldo tanto do Banco Central como do Ministério da Fazenda, além de não ser um caminho que o governo esteja perseguindo neste momento”, diz Figueiredo.

Por essa razão, a crescente probabilidade de troca de governo tornou Figueiredo otimista em relação ao Brasil.

Seria uma virada, inclusive nos preços dos ativos, similar ao que aconteceu com a Argentina após a eleição de Mauricio Macri para presidente, diz o ex-diretor do BC.

“Hoje é superior a 50%”, responde Figueiredo à indagação sobre qual a probabilidade de Dilma não terminar o seu mandato ou até fazer um governo de coalizão visando uma transição.

“As últimas duas semanas os acontecimentos se aceleraram de uma forma impressionante, não só de notícias vindas da Lava Jato, como também da própria relação do governo Dilma com o PT e da capacidade do governo de conseguir fazer coisas”, explica.

*Estadão Conteúdo

Roberto Brasil