Celebrar os nossos ancestrais é reivindicar o respeito pelos indígenas, diz Fred Góes

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CULTURA INDIGENA 05Da Redação – Nestes tempos onde continuam e aumentam os conflitos nas questões indígenas especialmente no Amazonas, o Blog da Floresta entrevistou um dos responsáveis pelas conquistas do Boi Garantido – vencedor do Festival de Parintins 2016, o Jornalista Fred Góes. O registro do seu enfoque, da sua paixão e a sensibilidade para o tema indígena nos indica que não houve avanços na defesa dos direitos dos indígenas, continua sendo uma fonte de cultura para relembrar os nossos ancestrais e reconhecer que mais da metade da população leva no seu sangue esta identidade.

CULTURA INDIGENA 10“Sempre tive essa preocupação desde menino. Nascido aqui em Parintins, presenciei algumas cenas desagradáveis contra os indígenas e carrego até hoje. Indígenas de muitas tribos hoje extintas, alguns de Parintins, agora restaram apenas os Sateré Mawé, que acabaram sendo afastados por conta da colonização. Eles vinham para a cidade e se embriagavam, sendo chutados como bonecos na roda. Isso me marcou muito. Acabei saindo de Parintins. Estive em São Paulo, mas sempre ligado aos povos indígenas da América Latina, trabalhando com a música da Bolívia, Peru, Argentina, Equador e tenho entendimento muito claro destes povos e muito mais daqui do Brasil”, relata Fred Góes.

indigenas-satere-mawe-ritual-tucandeiraA colonização continua 

“Nos outros países vizinhos, como a Bolívia, Peru e Equador, você vê o indígena, percebe a presença dos indígenas. No Brasil aconteceu à dizimação desses povos. Algo que não pode ser negado. Mais de dois milhões foram eliminados e foi um grande genocídio em nossa historia que nunca foi contada. Esta cultura está interligada com as culturas andinas. Antigamente, os povos transitavam e continuam transitando no rio Solimões. Existem documentos dos navegadores que relatam que eram províncias e os colonizadores dizimaram. Ainda com tudo isso houve a mistura étnica e seu resultado. Tentamos mostrar isso no Festival de Parintins, resultado positivo na minha opinião. Os problemas continuam para os indígenas. A maioria dos programas foram para tirar os índios do circuito, tipo o Serviço de Proteção ao Índio ou a Fundação Nacional do Índio (Funai), que também foi perdendo sua função, bem como cada vez mais as instituições que deviam cuidar disto. O Governo devia ter pulso para defender seus direitos, mas isto não aconteceu  e os conflitos aumentaram e muita coisa não foi resolvida. A situação só piorou”, salientou Góes.

CULTURA INDIGENA 02Segundo o artista, todo o dinheiro que é destinado à assistência indígena é desviado. “Eles estão excluídos do desenvolvimento econômico e politico do país. Temos que ter cuidado porque estamos acabando com eles. Esta população pode ser dizimada totalmente. Eles têm direito como qualquer outra pessoa humana. No começo, os registros falavam dos indígenas como seres maravilhosos, com respeito à natureza e outras qualidades humanas. Depois falaram que eram antropófagos ou canibais, isto não corresponde. Como foi isso? Acho que os indígenas devem estar informados, utilizar as tecnologias. Temos que saber que somos de origem indígena, pois 83% do povo brasileiro tem sangue indígena e no Amazonas ainda vivem 62% deles. O festival contribui com isso ao não ter vergonha de ser indígena ou ser descendente de indígena”, destacou.

satere-maweDiversidade e semelhança cultural

“Eu vejo o ser humano na construção universal, todo mundo ligado. Penso que a diversidade humana merece respeito, cada um diferente respeitando o outro, porque somos uma grande tribo humana. Ancestralidade é isso. E na grande tribo humana estamos divididos por questões espaciais e só. Tratar a questão indígena no festival foi uma maneira de contribuir para a causa deles. Algumas vezes fomos mal interpretados, mas nós acreditamos que é possível a preservação destas culturas e que podemos fortalecer cada vez mais. Temos muita diversidade dos povos indígenas, mas ao mesmo tempo temos muita semelhança também. Há tantas culturas dentro da Bolívia e Peru. É como aqui no Brasil que temos também, especialmente no Amazonas”, explicou o artista.

CULTURA INDIGENA 06Fredy Góes disse que os indígenas de Otavalo, no Equador, são parecidos aos nossos. “Um dos povos fala ainda tupi, no caso dos guarani a historia é maior. Eu pessoalmente valorizo a pessoa, o ser humano, o que existe dentro dele. A construção é universal de todos. A questão indígena deve ser sempre debatida para continuar a sua valorização e para reivindicar os seus direitos”, finaliza. (MG)

Roberto Brasil