Capriles pede que Brasil eleve o tom contra chavismo

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O oposicionista Henrique Capriles, governador do Estado de Miranda (Venezuela)

O oposicionista Henrique Capriles, governador do Estado de Miranda (Venezuela)

Governador do Estado de Miranda, que abriga Caracas, e candidato derrotado duas vezes à Presidência venezuelana, o opositor Henrique Capriles vê mudança na posição do Brasil sobre o governo do presidente Nicolás Maduro.

Em entrevista à Folha, Capriles revelou que só pôde participar de um encontro com chanceleres da Unasul, em março, porque o Brasil pressionou o governo. Ele diz que, há quatro anos, nem sequer era recebido pela embaixada brasileira.

Mas exigiu que a presidente Dilma Rousseff eleve o tom para condenar o episódio da última quinta, no qual um comboio de senadores brasileiros foi hostilizado por manifestantes e impedido de visitar presos políticos em Caracas.

Como vê o episódio dos senadores brasileiros?
Henrique Capriles – É a cara do governo mandar pessoas gritarem contra adversários. Mas desta vez, o governo passou dos limites. Foi absurdo impedir que a delegação pudesse chegar a Caracas. Sinto vergonha por aquilo. Os venezuelanos não são assim. A delegação, aliás, veio num avião da FAB, o que mostra como funcionam as instituições no Brasil. Aqui seria impossível que parlamentares opositores viajassem num avião da Força Área Venezuelana.

O senhor não tem dúvida de que foi orquestrado?
Foi ordem direta do governo. Havia grupos espontâneos no início dos anos 2000, quando os seguidores do [então presidente Hugo] Chávez eram muitos, e as pessoas se mobilizavam. Este governo não mobiliza ninguém espontaneamente. Não tem liderança nem apoio para isso. A estrada foi trancada com cumplicidade dos corpos de segurança do Estado.

O senhor vê inflexão do Brasil em relação à Venezuela?
Há quatro anos, era impossível falar com o embaixador do Brasil. Ele tinha ordem para não falar com a oposição. Ele tinha ordem para não falar com a oposição. Eu, na condição de funcionário público [governador], não de líder da oposição, não conseguia nem sequer ter intercâmbio cultural com a embaixada. A razão é que o Brasil via a oposição venezuelana como golpista.
[Após os protestos de 2014], todos os chanceleres da Unasul vieram a Caracas. Ao fim da reunião, o então chanceler Luiz Alberto Figueiredo disse que havia sido instruído pela presidente Dilma a conversar a sós comigo. Apresentei a situação para que ela não tenha só a versão do governo.
Na última reunião de chanceleres e oposição, em março, o governo vetou minha participação. Disseram: “Capriles não vai.” Sabe quem me pôs lá dentro? O Brasil. Há ou não há uma visão diferente? Mas, diante de uma situação como a de quinta, pedimos que Dilma eleve o tom não só sobre o ocorrido [dos senadores], mas sobre tudo o que acontece na Venezuela.

O que acha da ideia, defendida por setores no Brasil, de expulsar a Venezuela do Mercosul?
Não quero que isso aconteça porque quem sairia prejudicado é o meu país, não o governo. Temos que fazer com que produtos comprados dos países do sul tenham o melhor preço possível.

O senhor se vê como líder da oposição democrática. Isso significa que existe uma oposição não democrática?
O governo tem seus extremistas, e a oposição, também. O certo é focar os extremos ou o centro, onde estão a maioria dos venezuelanos? A maioria quer uma mudança pacífica, eleitoral e constitucional. Eu estou do lado desta maioria e trabalho para que ela se imponha democraticamente.

Muita gente na oposição diz que o governo nunca sairá do poder pela via eleitoral.
Então por que [López e outros] fazem greve de fome para pedir eleições? Este país mudou no dia 14 de abril de 2013 [eleição presidencial convocada após a morte de Hugo Chávez, na qual Nicolás Maduro derrotou Capriles por margem mínima]. Foi aí que acabou a maioria governista. Maduro chegou ao poder por uma eleição questionada e impugnada. Qualquer pesquisa de opinião mostra que 80% vê a situação como negativa. Você não acha que esses 80%, se bem organizados, podem derrotar os 20% que usam as armas e controlam as instituições?
Eu, que fui vítima do abuso do Estado, creio no voto. Além disso, ninguém me deu de presente o governo do Estado de Miranda. Ganhei o pleito de forma contundente. Numa eleição apertada, o governo pode te tirar a vitória das mãos. Mas, com a base de apoio popular que temos, com vantagem de 20 pontos da oposição que aparece em qualquer pesquisa, podemos ganhar.

Muita gente o critica por ter aceitado o resultado de 2013.
O que querem que faça contra tanques e fuzis? Pegar em armas também? [O herói da independência da Venezuela Simón] Bolívar também recuou. Recuar não significa dobrar-se ou entregar-se. Nunca vou pôr em risco nenhuma vida que não seja a minha própria. Coragem é saber dizer não. Uma guerra civil estava tomando forma. Quem morre nestas horas? Os mais humildes. A oposição não aguenta mais andar como carrinho de bate-bate. Há um ano diziam que era impossível ir às urnas. Hoje estão em greve de fome para pedir eleições. Um dia quiseram uma Constituinte, no outro, um Congresso Cidadão.

Imagina o governo anunciando vitória da oposição na TV?
Diante de uma maioria arrasadora, o resultado terá de ser lido. E a vitória na Assembleia Nacional será o ponto de partida para mudar os rumos da Venezuela. Imagine se aprovarmos uma lei para anistiar presos políticos. Outra lei: proibir dar petróleo de presente a outros países. Há países que não querem mudança porque a “renda-Venezuela” acabaria. Isso pode explicar o silêncio de alguns presidentes.

Como Dilma Rousseff?
Não quero pensar que ela seja pragmática a esse ponto.

Por que o senhor não visitou López na prisão nem participou de eventos com ex-presidentes que foram a Caracas apoiar os opositores presos?
Li na mídia brasileira que a mulher dele disse que eu não o havia visitado. Ela mentiu. Visitei Leopoldo e Daniel Ceballos, que foi transferido a uma prisão comum e, por isso, se tornou o rosto mais emblemático da sujeira do governo.
Sou solidário a 1000% com os companheiros presos, faria qualquer coisa para obter sua liberdade. Mas todos sabemos que isso não depende dos meus atos. Isso depende de ganharmos a Assembleia Nacional. Minha maior contribuição para a liberdade de Leopoldo é estar todos os dias em alguma comunidade carente. Você acha que a visita de ex-presidentes significa algo para as pessoas nas favelas?

Os aliados de López têm uma poderosa máquina de comunicação que o coloca na mídia o tempo todo.
Prisão política sempre atrai atenção da mídia. É natural que o pessoal do Leopoldo faça o que está fazendo. Eu não compito com eles. Se competem comigo, é problema deles. Quando você pergunta às pessoas o que eles esperam de seu líder, elas dizem que ele os visite e leve esperança. Quem faz isso? Dá para contar nos dedos de uma mão. Mas não vou mencioná-los porque é hora de agregar. É preciso ter cuidado com as bolhas. Liderança não é uma campanha de marketing nem tirar foto bonita. Há uma oposição que é refém do seu entorno e que não ir além dele. FOLHAPRESS

Roberto Brasil