CADA MACACO NO SEU GALHO

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Quando estive à frente da Secretaria de Justiça, no governo do doutor Amazonino Mendes, fiquei impedido de exercer a advocacia, por força de dispositivo legal inserto no estatuto que rege a profissão. Foram quase seis anos de afastamento das lides forenses, até que, encerrada minha missão naquele cargo executivo, retornei ao escritório, reencontrando toda a rotina do trabalho que exerço há mais de meio século. Foi nesse mister que, em ensolarada manhã, compareci ao fórum para participar de uma audiência num processo criminal. Ali, encontrei uns três ou quatro ex-alunos que, com visível afeto, me perguntaram: “Professor, o senhor está advogando”? Dei uma gargalhada e lhes disse: “E vocês queriam que eu estivesse fazendo o quê? Talhando carne? Advogar é a única coisa que, bem ou mal, eu sei fazer”.

Os jovens advogados riram, me abraçaram e compreenderam que não expressei nenhum menosprezo pela profissão de talhador de carne. Apenas quis significar que, sem conhecer um ofício, é impossível desempenhá-lo a contento. Daí a origem da afirmativa popular que serve título a estas mal traçadas. E que deveria servir de orientação para muita gente que, esquecendo esse singelo ensinamento, mete os pés pelas mãos e comete verdadeiras atrocidades em funções que jamais deveriam aceitar.

 

Querem ver? Vamos lembrar o exemplo do Lula. Pode ter sido um metalúrgico competente. Indiscutivelmente teve êxito como líder sindical. Mas, apesar do entendimento contrário da maioria do eleitorado que lhe deu uma reeleição, foi um desastre monumental como presidente da República. A partir do seu primeiro governo, o país só conseguiu andar em marcha a ré e mergulhou num pântano de corrupção no qual é impossível respirar.

 

Dizendo-se obcecado com a ideia de extirpar a miséria, começou ingente esforço para acabar com a sua própria e com a de seus mais próximos. E parece ter marcado gol de placa ao perseguir esse objetivo. Do operário de antes da ocupação do Palácio do Planalto já não se vê nenhum resquício. O filho mais velho conseguiu uma emancipação financeira relâmpago, capaz de fazer inveja à ousadia de qualquer investidor da Wall Street. O partido político pelo qual se elegeu largou de mão a bandeira da honestidade e começou a revelar sua face a partir do deplorável episódio do mensalão, em que o parlamento foi abertamente corrompido, trocando-se favores governamentais pela aprovação de matérias de interesse do Executivo. Era apenas um tênue sinal do que ainda estava por vir. O populismo barato alçou voo, ensejando a proliferação de programas demagógicos.

 

Frei Betto, velho e querido amigo de Lula, já afirmou: “O erro do Lula foi ter facilitado o acesso do povo a bens pessoais e não a bens sociais. Fiquei dois anos e, de repente, o governo matou o Fome Zero para substituí-lo pelo Bolsa Família. Tive então a certeza de que essa opção contrariava a tudo aquilo que o PT vinha pregando desde a fundação. O Fome Zero era um programa emancipador, o Bolsa Família é compensatório”.

 

Simples erro de opção? Longe disso. Opção mais do que consciente, por isso que reveladora da luta para, a qualquer custo, preservar o poder. Dir-me-ão: é da essência de qualquer partido político buscar o poder e, se possível, nele permanecer. Que o seja. Não tenho cultura nem erudição para contrariar a assertiva. Mas, a partir de simples exercício de bom senso, cuido razoável ponderar que esse “desejo de poder” não pode buscar sua satisfação à custa de elementares preceitos de ética e de dignidade, jogando-se para baixo do tapete todo o lixo da promiscuidade política.

 

Mesmo com tudo isso, Lula patrocinou a eleição de Dilma. Foi vitorioso e isso, por si só, já se constituiu num fenômeno, dada a indiscutível incompetência da ilustre senhora para cargo tão elevado. E, se o primeiro macaco já ocupou o galho errado, o espécime que o sucedeu tem sido o mais terrível caso de tragicomédia da moderna História brasileira. Com a agravante de que, num fenômeno ainda mais incrível, a beirar a paranormalidade, também obteve a reeleição.

 

O resultado é isto que estamos vivendo. Um país sem comando, entregue às traças, com a economia se desmilinguindo e o sistema de saúde, que já não prestava, perdendo feio para um simples mosquito. Com efeito, muito mais vexatória do que o célebre sete a um sofrido pela seleção nacional de futebol é a enxurrada de gols que o inseto tem aplicado no povo brasileiro. O “auriverde pendão da minha terra” já não está balançando e sendo beijado pela brisa nacional. Está sendo diuturnamente picado pelo mosquito, que não encontra resistência, diante de um governo apático, que só tem olhos para o seu próprio umbigo, assim como se a Nação fosse artigo de segunda categoria.

 

Tudo porque há macacos nos galhos errados. A frondosa árvore política do país não está sabendo distribuir a contento as suas ramificações, permitindo que as distorções daí decorrentes comprometam a própria sobrevivência do vegetal. E que ninguém duvide da possibilidade de extinção. Quando se aliam incompetência e corrupção, o resultado é sempre desastroso. O Brasil, este imenso Brasil que amamos, merece coisa melhor. Que cada um reconheça suas limitações e não queira dar um passo maior do que lhe permitem as pernas. É questão de coerência.

Áida Fernandes