BODAS DE OURO

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felix-valois-blogdafloresta_logo1964, todos sabem, não foi um ano de muitas alegrias. Afinal, logo no primeiro dia do quarto mês, os militares rasgaram a Constituição, depuseram o Presidente legalmente eleito e instituíram uma ditadura sangrenta que escureceu o céu do país durante vinte e cinco anos. Nossa gente andava “falando de nada e olhando pro chão”, sabendo-se, o que é pior, que toda essa violência foi praticada apenas para atender aos interesses de Washington, numa subserviência marcada pela histeria anticomunista. Eram tempos de tristeza e opressão, em que o ar pesado só podia ser respirado através do filtro da poesia, ela que é sempre o bálsamo para males de que não se pode falar e para dores que se suportam apenas por necessidade de sobrevivência.

“Faz escuro, mas eu canto”, pensávamos, e íamos divulgando que, “apesar de você, amanhã há de ser outro dia” porque tínhamos “a certeza na mente e a História na mão”, enquanto fazíamos “como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar”. O que não impedia, é claro, que, nos esconsos desvãos repressivos, brasileiros fossem torturados com os métodos da tecnologia da época, empregados em fundamentos hauridos da Inquisição. Outros eram apenas assassinados porque a intolerância ditatorial em tudo via o fantasma da “subversão” e em tudo, até no pensamento, queria encontrar a sabotagem e a revolta. Seria possível amar em tempos tão severos e ruins? Por definição, o amor não se mescla com a violência e com ela não pode conviver. Mas, talvez por isso mesmo, tem ele suas idiossincrasias e descobre mecanismos de sobrevivência inusitados. A aridez do ambiente não o faz recuar na montagem de seu ninho e, ainda que não sopre a brisa amena, estrutura-o forte e infenso às intempéries.

Pois foi isso que aconteceu lá naquele canto perdido do mundo, no início da rua Leonardo Malcher, ali quase às margens do igarapé de São Raimundo. Era ali que vivíamos, num ambiente em que a Idade Média ainda não tinha despido toda a sua roupagem. A luz elétrica era acontecimento fortuito e facilidades urbanas, como o asfalto, eram apenas remotamente pensáveis e desejáveis. E a carolice das beatas dava o imprescindível toque religioso com que a igreja católica exercia sua hegemonia, das missas às novenas, da cruzada eucarística ao apostolado da oração, não faltando, vez por outra, a ameaça de um exorcismo, se alguma ovelha se dispusesse a contaminar o rebanho, sob a influência do coisa-ruim.

Foi lá e então que Raymundo e Selma se conheceram. Eram jovens, bonitos e ingênuos. E pobres. Ele, meu querido e único irmão, era filho de um professor e de uma dona de casa. Ela, nossa vizinha, filha de um servidor público e de uma dona de casa, igualmente. Conheceram-se, amaram-se e casaram. Com dezoito e dezesseis anos, respectivamente, Raymundo e Selma formaram o casal mais jovem, mais feliz e mais pobre que eu já conheci. E, tenho certeza, a juventude e a pobreza perdiam de longe para o outro elemento da tríade, eis que a felicidade se lhes via nos olhos, no trato, na vida, enfim.

O tempo, esse senhor implacável de todas as coisas, não deu a mínima confiança no sentido de interromper sua marcha e seguiu, imponente, qual um rio a caminho do oceano. Enquanto Selma se dedicava aos afazeres domésticos, Raymundo, por incrível que pareça em razão das condições objetivas, conseguiu se formar em medicina na Universidade do Amazonas, transformando-se num clínico respeitado e, ao depois, em radioterapeuta de impecável conceito.

Desse amor, logo surgiu Luís Eduardo. Era meu primeiro sobrinho e, bebê em casa que há muito tempo não via essa novidade, logo se tornou o centro de todas as atenções. Eu o chamava, lembro-me, de “barriga”, em homenagem à sua gordura e ao ventre protuberante. Com ele brincava horas seguidas e, tão logo começou a querer articular alguns sons, eu – ó irreverência juvenil – queria que ele repetisse comigo esta singela frase: “Viva o Partido Comunista”. Dona Lucíola se benzia e, como toda avó que se preze, seguia para o oratório, ao fito de rogar perdão pela blasfêmia. Seguiram-se Isabela, que, como o irmão, enveredou pelo ramo do direito, e Tatiana, que, assim como o pai, firma seu nome nos domínios da ciência de Esculápio.

A todos, e mais aos seis netos, encontrei na última sexta, dia 10. Era, e eu nem acreditava que tinha passado tanto tempo, a comemoração dos cinquenta anos de casamento de Selma e Raymundo. Só conseguia pensar no trecho de uma canção alusiva a data similar, em que o autor afirma: “O meu coração me faz compreender que a vida é tão pequena para tanto amor”. A felicidade que vi irradiada é indescritível e não tem preço. Parecia ainda o jovem casal da Leonardo Malcher em que o tempo conseguiu deixar marcas físicas inevitáveis, mas não conseguiu, nem de longe, apagar “a felicidade que se lhes via nos olhos, no trato, na vida, enfim”. Nas Bodas de Diamante acho que já não estarei.

Roberto Brasil