As “Bombardeadas’’

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Jefferson-Praia-500x167Em um bairro de Manaus, num local muito simples, tive uma reunião com um grupo de mulheres pobres. Quando estive na Secretaria Municipal do Trabalho (2005 a 2008), participei de dezenas de reuniões com comunidades, mas aquela foi diferente: a energia me contagiou.

A líder do grupo, no início da reunião, disse: “Secretário quero lhe apresentar as bombardeadas.” “Por que bombardeadas?“ perguntei. “Olhe para nós! A vida nos bombardeou! Somos pobres, sem estudo, cheias de filhos, sem futuro… Queremos uma oportunidade para ganhar dinheiro.” Os olhos delas brilhavam, a força de vontade coletiva parecia sem fim; senti que podíamos realizar uma boa parceria com aquelas guerreiras.

Em outro momento inesquecível, numa comunidade muito carente, logo após terminarmos uma certificação de um dos cursos de qualificação profissional que oferecíamos, a professora do curso me pediu para dizer algumas palavras. O grupo era pequeno – 15 jovens mulheres com idade entre 16 a 21 anos. Falei sobre a importância de continuarem estudando e se preparando para atuarem no mercado de trabalho. Entreguei os certificados, tiramos umas fotos e, fui convidado a participar de um lanche.  A professora se aproximou e, após conversarmos sobre os projetos de geração de renda da Secretaria, ela me disse: “Secretário, todas são mães”. Fiquei chocado com aquela informação. Senti o tamanho de desafio que teria pela frente.

Pensava todos os dias em como ajudar as “bombardeadas” e as jovens mães. Lembrava de Muhammad Yunus – O “banqueiro dos pobres” que disse: “Estou profundamente convencido de que poderemos livrar o mundo da pobreza se estivermos determinados a isso.” Em 1983, esse professor criou o Grameem Bank – um banco que empresta dinheiro aos pobres, principalmente às mulheres. A iniciativa inovadora do economista Yunus, em relação ao microcrédito, livrou as mulheres de Bangladesh dos intermediários, dando-lhes condições de se tornarem empreendedoras.

Estava na hora de mudar a realidade de muita gente em Manaus, despertar empreendedoras! As parcerias com as comunidades estavam de vento em popa. Elas organizavam tudo, desde o local onde seria realizado o curso, às inscrições e feiras. Nós dávamos todo apoio. Fizemos cursos em escolas municipais, salão de igreja, sindicatos, clube de mães, nos CRAS – Centro de Referência da Assistência Social, nas residências e, até à sombra de árvore. As instituições que participaram conosco na realização de cursos foram o SEBRAE, SESC, SENAC, SESI, SENAI, entre outras. Milhares de mulheres tiveram a oportunidade de melhorar seus conhecimentos e habilidades profissionais.

Ao terminarem os cursos as empreendedoras abrilhantavam as feiras que realizávamos. Na feira – “Valorizando o Trabalho” que ocorria todos os meses, além das vendas de artesanatos, confecções, alimentos, aconteciam apresentações de cantores locais. Todas complementavam suas rendas familiares.

No programa de micro-crédito orientado – “Manaus Empreendedora” – muitas mulheres começaram seus negócios e devem, em algum lugar, estar vivendo uma vida mais digna.

Todavia, o desafio continua. Temos que enfrentá-lo, dia a dia! Muitas mulheres querem ter a oportunidade de empreender, de viver uma vida melhor, e não encontram apoio dentro e fora de casa. Portanto, Políticas Públicas votadas para empreendedorismo feminino (individual ou coletivo) devem ser estimuladas cada vez mais. A participação da comunidade em todas as ações é fundamental. Pontos importantes a serem observados: o potencial econômico das comunidades; os cursos de capacitação e qualificação profissional; o microcrédito com taxas de juros baixas e com acompanhamento; os eventos; a formação de cooperativas, entre outros.

Sei que não é fácil combatermos a pobreza. Só não podemos desistir! Ressalto as palavras do professor Yunus, “Nós acreditamos que a pobreza não tem lugar numa sociedade civilizada, e sim nos museus”.

Roberto Brasil