Após 3 anos de recessão, desabastecimento dá lugar à miséria na Venezuela

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Mulher conta as muitas notas para pagar por compras em supermercado estatal na favela San José, em Caracas

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Embora o governo Maduro minimize a gravidade da crise, a economia venezuelana está prestes a entrar em colapso; recessão já dura três anos, a inflação passa dos 700% e a pobreza extrema avança.

Pela primeira vez, deputados chavistas e a oposição têm trocado argumentos cara a cara, em vez de injúrias à distância. A Assembleia Nacional, controlada pela oposição de centro-esquerda, decidiu se debruçar sobre a crise econômica e social que vem devastando a Venezuela. Para demonstrar o quanto a chegada ao poder do ex-presidente Hugo Chávez (1999-2013) beneficiou os trabalhadores, um de seus partidários exibe um infográfico que mostra o aumento contínuo do salário nominal. Já o economista e deputado da oposição José Guerra mostra na tela da câmara os números do salário real, cujo poder de compra caiu 30% em três anos. O salário mínimo agora é menor que o de todos os outros países da região, inclusive do Haiti, independentemente da taxa de câmbio utilizada

“Não conseguimos entrar em um acordo quanto ao diagnóstico da situação”, lamenta o deputado Guerra, entrevistado após essa sessão de 8 de novembro. Mas há urgência, pois a recessão já dura três anos e o produto interno bruto (PIB) venezuelano deverá cair mais 10% em 2015. A inflação ultrapassou os 700% por ano, o que explica a desvalorização dos salários. “A hiperinflação não é um fenômeno estático, mas sim um tsunami implacável”, afirma Orlando Ochoa, economista da Universidade Católica Andrés Bello, em Caracas. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), ela deverá chegar a 1.660% em 2017.

O controle de câmbio imposto há tempos resultou em um diferencial desastroso para um país que precisa importar todos seus bens de primeira necessidade: o dólar é comercializado a 2 mil bolívares no mercado paralelo para uma cotação oficial de 10 bolívares. Resultado: todas as grandes transações se fazem em dólares, seja para imóveis, carros ou passagens de avião. Essa “dolarização” agora chegou aos alimentos, uma vez que o governo autorizou a importação e a venda de artigos a preço de mercado internacional como paliativo para o desabastecimento.

[com LE MONDE]

Roberto Brasil