A ENCOXADA E O XIBIU

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felix-valois-blogdafloresta_logoDotada de grande sabedoria e de não menor senso de pudor, a vereadora pastora Luciana quer evitar que os marmanjos, aproveitando-se da superlotação dos ônibus, se entreguem ao tradicional exercício do esfrega-esfrega nas moças que viajam de pé. A imprensa, com a criatividade que lhe é característica, batizou a tal prática de “encoxada”, palavra que não tem residência no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa e que, para falar a verdade, não sei se foi utilizada no precioso projeto de lei agora submetido à apreciação da Câmara Municipal desta serena e soberana cidade de Manaus, tão ressentida da ausência dos antigos bondes elétricos.

Cuido razoável ponderar, entretanto, que, sendo a língua um organismo vivo, está em permanente mutação. Em assim sendo, é possível que a encoxada da pastora venha a se integrar no glossário do deputado Dallas que, já atuando no parlamento de nível estadual, propõe incorporar ao patrimônio cultural e imaterial da terra de Ajuricaba algumas expressões e palavras bem regionais, entre as quais avulta, pela sua relevância, o delicioso termo “xibiu”.

Não sei (a minha ignorância é sempre problemática) se a encoxada tem aplicação em outras plagas ou se foi criada e cultivada apenas aqui, em nosso território, talvez por influência do “sol moreno” que, segundo o grande Chico da Silva, nos queima a tez e pode ser capaz de despertar, ainda que remotamente, alguns sentimentos lúbricos. Já o xibiu (disso tenho certeza) é universal e se em algum lugar não é conhecido pela simpática denominação, isso não lhe tira esse grandioso caráter de universalidade, sem o qual, diga-se de passagem, a própria existência da Humanidade estaria seriamente comprometida.

Com o xibiu e a encoxada, as duas principais casas legislativas do Estado estarão às voltas nos próximos meses com problemas da mais alta relevância, aos quais terão que dar solução, não digo salomônica para não soar afetado, mas pelo menos tão equânime e sábia quanto possível, diante da complexidade dos temas. Afinal de contas, trata-se, quando nada, de aspectos morais e de cultura que dizem respeito a toda a comunidade. Eu nunca fui a uma audiência pública, de forma que não sei se o instituto funciona ou se tem efetiva utilidade. Mas chego a pensar se não seria o caso de convocar uma dessas audiências, de forma a permitir que todo o povo, atraído pela singularidade e preeminência dos assuntos, manifestasse a diversidade de opiniões sobre eles. Assim, democraticamente conduzidos, o xibiu e a encoxada haveriam de receber tratamento condigno, a se revelar nas soluções legislativas que vierem a ser adotadas.

Os debates haveriam de ter momentos marcantes, com pronunciamentos de fazer inveja a qualquer orador de escol. Lá estaria registrada em ata a manifestação de um senhor de meia idade, que assim falou, dirigindo-se à pastora: “Em primeiro lugar, conceda-me o privilégio de sua santa bênção e deixe que eu invoque outras tantas da divindade para lhe iluminar o caminho. Devo lhe dizer, todavia, que, sendo passageiro habitual dos ônibus, nunca me passou pela cabeça me entregar a essas relaxações de cunho nitidamente imoral. Mas uma coisa eu tenho que perguntar: se, segundo a imprensa, Vossa Excelência pretende que todos os assentos sejam preferenciais para as mulheres, estaria sendo tomada a exceção pela regra? Se a resposta for positiva (e olhe que a pergunta tem conteúdo filosófico), formulo-lhe outra indagação: só havendo homens em pé, não corremos o risco de lançar no mercado a encoxada homossexual? Pense e reflita sobre o que é melhor”.

Na audiência a ocorrer na Assembleia, teríamos a palavra daquela simpática senhora que, com respeito e deferência, assim se haveria de dirigir ao deputado: “Vejo que Vossa Excelência, igualmente respirando o odor de santidade, tem em grande apreço o nosso inestimável e inalienável xibiu. É prova inconteste de sua tão conhecida dedicação ao que é de interesse do nosso amado povo, do qual Vossa Excelência é, sem sombra de dúvida, um dos mais lídimos representantes. Mas sou forçada a lhe pedir que me esclareça a razão de ser apenas o xibiu e não, também, a piroca”? Esclarecimento imediato do parlamentar: “Minha cara senhora e, espero, minha fiel eleitora, meu projeto é eclético e, nele, a piroca também está contemplada”. A réplica seria antológica: “Muito obrigado, nobre deputado. Se o seu projeto, tão laboriosamente concebido, lograr unir num só e mesmo lugar o xibiu com a piroca, ele é a própria reformulação da teoria da origem das espécies e Darwin há de estar morrendo de inveja de não ter sido ele o autor”.

Na minha insignificância, nada mais tenho a dizer, mesmo que outra coisa me seja perguntada. Passo este 1º de Maio feliz por ver que, em homenagem aos trabalhadores do Brasil, não existe apenas o desregramento do governo federal, com seus escândalos, roubalheiras e trapalhadas. É possível ver, igualmente, que, nos parlamentos, a atividade febril de seus integrantes está contribuindo, de maneira decisiva, para melhorar a vida de quantos só conseguem ganhá-la com o suor do próprio rosto. “Brava gente brasileira/Longe vá temor servil/Ou ficar à Pátria livre/Ou morrer pelo Brasil”.

Roberto Brasil