A crise

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Já ficou dito aqui em outro tempo: do jeito como funciona o Sistema Único de Saúde, a pessoa tem que ter intimidade com a doença a ponto de pedir que ela espere pela boa vontade da burocracia e que tenha paciência com a falta de estrutura. Um exame de laboratório pode levar seis meses e outros tantos podem ser gastos para uma simples marcação de consulta. O processo é kafkiano, com potencialidade para levar à loucura qualquer monge budista. Levante-se de madrugada para entrar na fila de obtenção de ficha, torcendo para que as fichas daqueles dias não se acabem de chegar a sua vez. Caso contrário, repita a operação novamente, tantas vezes quantas forem necessárias para que o Estado brasileiro inicie o cumprimento de uma das suas obrigações primárias, qual seja a de assegurar a prestação de assistência médica e hospitalar a todos, independentemente de raça, sexo ou renda.
Há uma lógica perversa nisso tudo a se traduzir pela expressão popular, para a qual “a corda sempre rompe no lado mais fraco”. A massa informe de desvalidos não tem poder de mando e seus reclamos e aspirações ficam represados sem qualquer possibilidade de extravasamento. A coisa fica mais patente agora, neste preciso momento de nossa História, em que a palavra crise é pronunciada e repetida a todo instante e por qualquer motivo. “A crise é grave”, proclamam os chefões do alto de suas tamancas, mas sem dizer, mesmo que de passagem, onde e por que teve origem a tal crise. “Estamos em crise e pronto. Quem quiser que aperte os cintos porque nós, os iluminados, estamos fazendo de tudo para debelá-la, mas não podemos fazer milagre”.
Como é, então, que os bancos estão lucrando cada vez mais, apresentando ganhos semestrais que só podem ser escritos com mais de nove dígitos? A minha ignorância, santa e pacata, só pode me levar a concluir que eles, os bancos, estão numa bolha, infensos a crises, tempestades e trovoadas. Talvez por isso os cintos se lhes alarguem, ao invés da apertura recomendada para os simples mortais. “Isso é ciência econômica, meu bom paspalho, e dela nada entendes”, há de me ponderar o teórico refestelado na vasta poltrona que ornamenta seu bem montado escritório. Tem toda a razão do mundo. E, sendo verdadeiro que entendo tanto do assunto quanto de física nuclear, por que cargas d’água estou me intrometendo em seara alheia, metendo o bedelho aonde não fui chamado? Por uma simples razão, ainda esta respaldada na popular sabedoria: perguntar não ofende. Ora, se não estou ofendendo ninguém (e que fique longe de mim tal propósito), sigo apenas o caminho da curiosidade: pergunto exatamente porque não sei, mas quero saber.
Quer ver outra coisa que eu desejo compreender? Hoje li nos jornais que o governo quer dificultar a concessão do auxílio-doença e da aposentadoria por invalidez. O argumento é o mesmo, vinculado à crise e à necessidade de poupar gastos. Pois muito que bem. Uma pessoa está doente ou não está. Em estando, e sendo empregada em algum lugar, não haverá de poder comparecer ao serviço, devendo permanecer em repouso e em recuperação, em casa ou no hospital, ou seja lá aonde recomende a ciência médica. Durante esse período, claro que deve receber a remuneração correspondente, pois, caso contrário, se a doença não a levar desta para melhor, disso se haverá de incumbir a fome. Ora, mas o governo vem agora com a gracinha de que essa pessoa, que teve a infelicidade de adoecer, só poderá receber o benefício se estiver trabalhando há pelo menos dois anos. De novo se torna necessária uma quase cumplicidade com a patologia. É indispensável avisar a todas as doenças do mundo no sentido de que não acometam ninguém que esteja há menos de vinte e quatro meses no emprego. Se o fizerem, lavram sentença de morte.
Na mesma linha segue a questão da aposentadoria por invalidez. Digam-me, por favor, para ver se eu consigo superar esta obtusidade que me aflige: quem, no universo, quer ser inválido? É possível pensar em alguém que seja tão malandro a ponto de trocar uma boa condição de saúde pela invalidez só para receber uns trocados da previdência oficial? É mórbido demais para o meu gosto. Mas, na sua alta prosopopeia, assim pensa o governo. “O Ministério da Saúde recomenda: à invalidez, prefira a morte. É mais rápido e sua família ainda recebe o auxílio-funeral”. Se este subsistir, é certo.
É miséria demais! O quadro é quase caótico, a revelar um completo menosprezo pelo que é do povo e para o povo. Mas encontrei, nesse oceano de incompetência e arrogância, algo que me demonstrou ser possível superar entraves quando se quer. Falo do serviço de expedição de passaportes, sob a responsabilidade do Departamento de Polícia Federal. A burocracia perdeu feio e os trabalhos se desenvolvem com eficiência e rapidez. A começar pelo aviso, via e-mail, da proximidade de vencimento do documento em uso. Daí à emissão da GRU para pagamento da taxa e ao agendamento para a entrevista pessoal, tudo funciona a contento, com pontualidade impecável, sem percalços e sem atropelos. Alie-se a isso a cortesia e boa educação do pessoal responsável pelo atendimento e teremos (digo melhor, temos) um oásis de sensatez em pleno domínio da burocracia mais desenfreada. Por questão de honestidade, fica o registro. É pouco para a tal crise. Mas é um começo. Não custa nada seguir o exemplo.

Áida Fernandes