‘A alegria se apagou’, diz mãe sobre morte de menino símbolo do PAC

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Bianca Pereira segura a foto filho, Christiano, pelo então presidente Lula

Bianca Pereira segura a foto filho, Christiano, pelo então presidente Lula

Em 2008, o filho de Bianca Pereira virou símbolo do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) em Manguinhos, zona norte do Rio. No início deste mês, aos 15 anos, Christiano Tavares morreu com suspeita de overdose.

Foi o desfecho da história do menino que ganhou notoriedade ao conhecer de perto Luiz Inácio Lula da Silva, então presidente da República, na entrega do conjunto habitacional no local.

No início de 2008, duas mulheres bateram na porta do meu barraco de madeira em Manguinhos e me ofereceram um apartamento que seria construído pelo Lula.

Pensei que era um traficante, mas disseram que era mesmo o presidente da República. Eu aceitei, claro, fiquei muito feliz.

Perto da inauguração, um jornal tirou uma foto do Christiano brincando em um vazamento de água.

Não achei nada demais, até porque sou nascida e criada em Manguinhos e aqui as crianças sempre brincam em poças de água no barro. Eu já mergulhei em uma também.

O governo gostou de usar a foto como propaganda. Falaram: símbolo do PAC. Deram óculos de natação para meu filho, sunga e o deixaram mergulhar na piscina no dia da inauguração, quando o Lula veio.

Sabe quando ele mergulhou de novo? Nunca. Construíram um muro em volta da piscina, que acabou fechada para os moradores. Nunca houve aula de natação para as crianças, como tinha sido prometido.

Mas naquele dia foi uma alegria só. Foi abraçado pelo presidente, conheceu gente importante, e só tinha 8 anos.

Todos na favela começaram a dizer: olha o Lulinha! E ele adorava. Se apresentava como Lulinha e dizia que queria ser nadador, por isso ele achava que não precisava estudar.

Mas, como ainda não sabia ler, voltou para a escola. O PAC foi o incentivo para ele aprender a ler. Só que era fraquinho, repetia muito.

O professor me chamou para conversar a respeito. Me disse: seu filho só quer ficar no recreio.

Ele abandonou a escola, ano passado, na sexta série. Dizia que iria voltar.

Meu filho virou adolescente e ficou frustrado. Viu que nada daquilo que ele sonhava, ser nadador, famoso de novo, iria acontecer. Passava o tempo no computador e assistindo televisão.
Tinha boca e não falava. A alegria de criança se apagou.

Eu estava em casa dormindo quando meu irmão me ligou. Disseram que ele estava na praça escutando som quando caiu. Levaram para a Unidade de Pronto-Atendimento.

Cheguei lá e o médico disse: tem nada para fazer, seu filho cheirou tíner [solvente de tinta] demais, overdose.

Não quero acreditar que ele morreu por drogas. Costumava dizer que Christiano era uma estrela na minha vida. Sempre me trouxe sorte. Teve até uma vez que joguei a data de nascimento dele em uma rifa e ganhei eletrodoméstico.

Tinha 20 anos quando ele nasceu. Depois tive duas meninas. Três filhos em quatro anos. E, então, meu marido me abandonou.

Comecei a trabalhar aos 16 anos como costureira, mas, como não tinha formação, fui fazer faxina para sustentar as crianças.

Ganho R$ 833 por mês, acordo às quatro e meia da manhã e pego dois ônibus para ir trabalhar. Seis da manhã já estou fazendo faxina.

A gente se encontrava pouco. Quando Christiano me procurava para falar algo, era para pedir dinheiro. Principalmente roupa.

Meu filho sempre usou roupa de marca. E eu fazia questão de comprar tudo para que ele não se misturasse com traficantes. Sei que vida fácil é o tráfico, mas sempre aconselhei meu filho a não ir para esse lado.

Talvez, se eu tivesse um emprego melhor, poderia ter dado mais coisas para ele. Durante o PAC, quis trabalhar nas obras, pedia emprego para as assistentes do governo. Nunca consegui.

Usaram o Cristiano como imagem, depois todo mundo sumiu. Manguinhos continua abandonado. É só ver o lixo por aí. A única coisa que funciona é a clínica para as grávidas. Minha filha de 13 anos está com seis meses [de gestação] e faz o pré-natal lá.

Estou de luto, mas minha alegria vai voltar com essa bebê que já escolhemos o nome: Christiane Vitória.

Queria que o governo olhasse mais para o povo da favela, não só para fazer propaganda. FOLHAPRESS

Roberto Brasil