347 ANOS – O texto abaixo é dedicado à professora Etelvina Norma Garcia

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Aproxima-se o aniversário de Manaus e me dá vontade de erguer um brinde que lhe esteja à altura. Não sei como fazê-lo. Gostaria de cantá-la em prosa e verso. Mas, como? A Musa nunca me deu intimidades, de forma que a poesia fica para os privilegiados como Chico da Silva e Pedrinho Ribeiro que, amazonenses, tal qual eu, hão de encontrar as rimas adequadas para tão sublime objetivo. Minha prosa também é capenga. Se é verdade que não sou capaz de grafar “cachorro” com xis, nem “exceção” com dois ou quatro esses, estou longe, muito longe, do nível de um Machado de Assis (que pretensão!). Este, com a sua bruxaria oriunda do Cosme Velho haveria de colocar no papel as palavras aptas a dizer o que é que esta cidade tem de tão encantador.

Por que nutro tamanha paixão? Aqui nasci e isso já seria suficiente para justificar o enlevo. Banhei-me nas águas então límpidas dos igarapés e, pés descalços, pisava o chão querido. Não era muito chegado ao manejo da bola de futebol, mesmo a de sernambi, o que não impedia os folguedos na rua Leonardo Malcher, onde passei a infância e a juventude. Era a Manaus sem energia elétrica, mas dos bondes. A cidade onde os automóveis eram raridade, trafegando lado a lado com os ônibus de madeira, com nomes bizarros qual “Zepelin” e “Radiant”. Onde o calor sempre existiu, amenizado apenas pelas conversas noturnas, com as cadeiras espalhadas pelas calçadas. Não importava a ausência eventual do luar. A brisa morna do igarapé de São Raimundo inundava a rua, como num acalanto para o sono que, apagadas as velas, era dormido na rede atada no longo corredor da casa paterna.

O caminho diário para o Grupo Escolar “Princesa Isabel” e, ao depois, para o Instituto de Educação era percorrido com tranquilidade e sem temor de nenhuma espécie. As buganvílias se penduravam nos caramanchões da Praça da Saudade, emoldurando o monumento a Tenreiro Aranha e enchendo de beleza o aristocrático Atlético Rio Negro Clube. Mais tarde o percurso se alongou e havia que ultrapassar mais duas praças, a do Congresso e a de São Sebastião, para chegar ao Colégio Estadual, verdadeira Universidade no ensino médio, fruto do respeito que havia pela escola pública e pelos professores. Até que, afinal, outra praça entrou no roteiro, a da Polícia, para permitir o acesso à Faculdade de Direito, a velha Jaqueira da Praça dos Remédios, cujo prédio hoje ameaça ruir, por conta de uma burocracia estúpida e incompreensível, que se enreda nas suas próprias malhas.

Se não bastasse, aqui teve fim minha vida de solteiro e vi nascerem meus quatro filhos. Se sempre lhes ensinei o amor da Pátria, igualmente jamais negligenciei em lhes fazer ver o privilégio que é ter Manaus como berço. A majestade esplendorosa do Rio Negro exige que o verdadeiro manaura mergulhe em suas águas e todos eles já foram ao gigante de ébano cumprir o ritual que, não previsto em nenhum estatuto formal, faz parte da nossa própria essência. Luís Carlos, Lucíola, Alfredo e Lúcia são os frutos de uma convivência que ultrapassa meio século. E são, acima de tudo, motivo de um monumental orgulho que faço questão de não esconder porque o amor que lhes tenho não cabe, não pode caber, em tão canhestro texto.

Deles, e ainda na minha querida Manaus, me vieram os oito netos. Bruna, de beleza magnificente, cuida de entrar para o curso de medicina. Luciana, igualmente bela, passeia nos sonhos da adolescência, enquanto Helena, Ayla e Catarina, no fulgor dos primeiros anos, incendeiam as casas com as bonecas ou com as chupetas. Luís Carlos, Fábio Junior e Lauro sãos os varões manauaras que, afeitos às coisas da terra, gostam de tucumã e não dispensam a pesca do tucunaré.

Esta é a Manaus em que, agora, vivo a minha velhice e onde, por certo, deixarei de existir. Enquanto não chega esse momento, deixem que eu continue amando a cidade que hoje, livre dos camelôs, consegue mostrar toda a exuberância de sua arquitetura urbana. Deixem que eu olhe a imponência do Teatro Amazonas e não me canse de lhe admirar a beleza. Permitam que eu estenda meus olhos sobre o Rio Negro e tenha inveja das Anavilhanas que com ele convivem bem mais de perto do que eu. Deixem, enfim, que eu parabenize Manaus. Manaus, “Yo te quiero”, “Je t’aime”, “I loveyou”. Eu te amo, Manaus.

Mario Dantas